Sempre
ao fim de cada ano as empresas realizam balanços de seus resultados alcançados.
No caso de governos isso não é comum, mas resolvemos adotar medidas semelhantes
em relação aos dois anos de mandato da presidente Dilma.
O
ano de 2012 ainda não acabou, mas acho que já é possível tentar uma análise da
primeira metade do mandato de Dilma Rousseff na presidência do Brasil.
Eu
venho dizendo ao longo destes dois anos o que frisei no início do mandato dela.
Dilma não é pessoa que gosta de ser mandada simplesmente porque quem manda
quer, precisa convencê-la. Para ela sustentar uma ideia precisa que ela
acredite nela, é o que se percebe pelo seu gestual e oratória. Ela não segue
toda a cartilha do molusco, segue o que lhe convém.
Sempre
indiquei que ela só teria um caminho para sobreviver na política. A necessidade
de Dilma se afastar do governo do molusco gigante, mais ou menos no sentido de
deixar claro que “quem manda” no governo é ela, e não o ex-presidente e seu principal
mentor político.
Neste
sentido ela deixou fritar vários ministros indicados pelo molusco, sendo Palocci
o principal deles. Ela já em janeiro de 2011 se livrava ‘do incomodo’, prevendo
a “fritura” de Palocci, que viria a se concretizar em 7 de junho.
O
governo Dilma tenta, ainda, imprimir um marco diferente do molusco, qual seja o
de ser um governo que consolidaria um país de classe média. Molusco dizia na
sua retórica, e tentou sempre segui-la, que era um presidente que governaria para
os pobres e miseráveis.
Dilma
tenta se posicionar como uma presidente que transformaria o Brasil num país
majoritariamente médio-classista.
Sempre apostei que ela daria uma guinada em
direção à classe média, setor econômico meio abandonado no governo do molusco.
Iria, assim, se consolidar esta estratégia no governo dela, Dilma.
No
início do mandato era, para mim, mais uma esperança do que uma
constatação. De lá pra cá, o governo se consolidou de maneira bastante
convincente. A ponto de o marqueteiro que fez a campanha vitoriosa do molusco em
2006, de Dilma em 2010 e de Haddad em 2012 apostar numa reeleição da presidente
em primeiro turno, se concorrer [ou o molusco deixar], em 2014. Numa entrevista
recente ao jornal Folha de
São Paulo ela reafirma. Hoje
dá pra dizer que o tal governo
para a classe média é mesmo a estratégia e a principal marca da
gestão de Dilma Rousseff.
O
que demonstra visão estratégia e inteligência política. O principal risco que
ameaçava o PT ao final do governo do molusco era ver o ‘quase sucesso total’ do
combate à miséria cavar a sepultura eleitoral do próprio PT. A imagem seria
mais ou menos a seguinte: o governo ‘molusquento’ teria se empenhado em amainar
a dura vida dos pobres e miseráveis, que tem sido uma boa percentagem da população
brasileira desde tempos imemoriais. Políticas de transferência de renda
[esmolas], aumento real do salário mínimo e manutenção da estabilidade de
preços, além de garantir o sucesso do Real implantado por FHC; garantiam o
sucesso em tirar amplos contingentes da miséria extrema e lançá-los a tal “nova
Classe C” [renda acima de R$ 1.500,00 mais ou menos], que é na verdade, a meu
ver, uma mudança de país
extremamente pobre para país
pobre simplesmente.
Ao
mesmo tempo, e ISSO A MÍDIA OPRESSORA NÃO DIVULGA, o governo ‘molusquento’ não descuidava de manter satisfeita a
elite econômica (industrial, financeira e do agronegócio). Ao contrário
do medo atávico que foi sempre cultivado pela imprensa oligárquica, o governo do
molusco não arriscou nenhuma medida que prejudicasse o lucro da grande
indústria, dos bancos ou do setor agroexportador. Quem se sentia
abandonado politicamente nos tempos do molusco era, EXATAMENTE, a classe média
das capitais [aposentados que recebem mais de um salário mínimo, pequenos
empreendedores, executivos, professores, etc.] e dos grandes centros, o que
explica em grande parte a sanha oposicionista de grandes setores da imprensa. A
revista Veja e
assemelhados não têm posição política, têm necessidades comerciais, e adotam
a linha editorial que agrada seu público comprador. O risco que corria,
e corre, o PT era/é o de ver o país virar classe média e o eleitor cair nos
braços do PSDB, o partido de representação política médio-classista por
excelência.
É
provável que o molusco já contasse com todos estes fatores ao sustentar a
candidatura de Dilma para sua sucessão. A ‘genialidade política' do ex-operário
incluiu enfraquecer as instâncias do partidão [tornando-se um quase Deus, o
partido do eu sozinho - políticos como Suplicy, Paulo Paim e outros no PT,
quase não tem tido voz], que quase foi dizimado quando veio à tona os casos do ‘valerioduto’
- o ‘Mensalão’, e agora a operação Porto Seguro [essa infelizmente para ele chegou
muito próximo do seu próprio 'closet'], além de muitos outros escândalos políticos,
econômicos e sexuais. Com isso o molusco viu ‘jogarem aos leões’ os dois
principais candidatos à sua sucessão: Palocci e Dirceu.
Houve
um tempo em que se dizia que o molusco era meio que um tolinho, enquanto
Palocci era o ‘esperto e inteligente’ que garantia o sucesso econômico do
governo, e Dirceu o articulador e a eminência parda que garantia apoio
político. Ficou provado que o molusco podia, e pode, sobreviver politicamente
sem os dois, e um dos fatores que levou o metalúrgico a terminar o mandato em
alta cotação junto a massa (uma coisa meio sem precedentes na política brasileira desde, digamos,
Getúlio Vargas) foi o fato de não ter candidatos à sua sombra. Muito embora o
último escândalo de corrupção e sexual tenha abalado sua credibilidade junto a
massa. Afinal ele não seria semideus, mas um humano normal que até trairia a
mulher em público e no privado [com trocadilho].
O
outro aspecto desta ‘genialidade empírica’ foi escolher para a sucessão uma
candidata sem vida própria, que dependeria totalmente dele, Dilma, para se
eleger. Mas que, desafortunadamente para êle, tem todas as condições de desenvolver um ótimo mandato, e
virar a nau petista para o tal país de classe média, impedindo que o sucesso
político da sucessora do molusco jogasse o Brasil nas mãos do PSDB.
Hoje
está claro que o plano da sucesora vem dando certo. O governo Dilma é uma continuidade
profunda do governo ‘molusquento’, mas, também, apresenta pontos claros de
ruptura.
Eu
não consigo descobrir se a tal ruptura que eu imaginei quando ela foi eleita e
tomou posse em janeiro de 2011 é efetiva ou é jogo de cena político. De
uma coisa tenho certeza, as tensões internas são fortes entre Dilma e a turma
de ex-poderoso José Dirceu, agora indo preso. Parece coincidência ou não, mas o
tal caderninho que Dirceu tinha com uma lista quase infinita de nomeados para
todos os escalões do governo é bastante coincidente com a lista de pessoas que
a PF está investigando, que a imprensa está divulgando e a Dilma está
demitindo, sem complacências. Na lista vários ministros, funcionários de alto escalão e
subalternos, em suas inúmeras ‘faxinas.
Essa
ideia de um governo que não tolera a corrupção, que é uma mudança de imagem bem
forte em relação ao governo do molusco, que blindava seus amigos e correligionários
desses escândalos e indiretamente ‘se blindava’. Esse mecanismo da atual PR faz
parte do tal trânsito para uma política mais do agrado da classe média.
Nós
poderíamos prever que o governo Dilma iria enveredar por esta linha quando ela
foi visitar o pessoal da Folha
de São Paulo, marcando uma aproximação do governo com a mídia
tradicional com a qual o molusco nunca se deu, minimamente bem. Ou quando ela
deu declarações que indicavam que a política externa do Brasil ia se afastar do
Irã.
Estas
grandes linhas de mudança (política externa, relação com a mídia/imprensa e
tratamento da corrupção entre os aliados políticos) são, digamos assim, uma
mudança mais de discurso ou de imagem, sem implicações muito diretas na vida econômica
dos brasileiros, exceto pela sensação de alma lavada da classe média pensante,
instruída e politizada.
As
mudanças mais diretas, que podem afetar a classe média, estão sendo
empreendidas na política econômica, na qual o governo Dilma vem provocando uma
verdadeira revolução de bastidores sem alardes e sem discursos midiáticos que o
molusco tanto adorava, falava sem agir, essa PR age sem falar.
Costuma-se
dizer que um país como o Brasil é um ‘avião supersônico imenso’ - econômico, no
qual não é possível ‘dar uma guinada de 360º’ - um ‘spin’ no ar.
Com
dois anos em perspectiva, já podemos dizer que o governo Dilma colocou o Brasil
no caminho de mudanças econômicas que desembocarão [se não houver desvio de
rumo ‘orientado’ pelo molusco] tão profundas quanto à abertura comercial
[quebra de cartéis do setor automotivo] da era Collor, ou a estabilização da
moeda criação do bolsa-escola e as privatizações da era FHC, ou a retomada do
crescimento e a tentativa de maior distribuição de renda da era ‘molusquenta’.
Entre
as grandes mudanças, podemos elencar:
A.
a
redução dos juros básicos, de níveis em que o patrimônio se multiplicava
rapidamente em aplicações financeiras de baixo risco (aplicações de renda
fixa), para níveis em que se terá de arranjar jeitos de ganhar dinheiro
novamente em atividades produtivas, como em países normais;
a.
a
migração do financiamento da previdência de impostos sobre o salário para
impostos sobre o faturamento, coisa que o governo teve a sabedoria de fazer aos
poucos, de modo que todo mundo pode se adaptar com calma. A medida beneficia
setores mais intensivos em MO, e colabora para reduzir o tal custo Brasil e
mitigar a transferência de produção industrial para a China;
b.
a
retomada dos investimentos com privatizações em infra-estrutura: não apenas o
Minha Casa Minha Vida, mas os ambiciosos programas de investimento em
hidrelétricas, portos, rodovias, ferrovias e aeroportos. Esses gargalos que o
molusco não atacou estão parados no Brasil há 10 anos, e que causa boa parte
dos transtornos que aperreiam a vida da classe média nas grandes cidades, dos
exportadores e do comércio em geral.
c.
o
novo regime automotivo [diesel principalmente], que está ampliando e
aprofundando os investimentos da indústria automobilística no Brasil, com
profundos impactos em toda a cadeia produtiva;
d.
os
embates na renovação das concessões de usinas elétricas que visam baixar a
tarifa de energia, às custas das margens das empresas do setor e em benefício
de todo o conjunto da economia;
A
lista poderia aumentar com mais itens como: desburocratização, redução de impostos,
redução da máquina estatal e eficiências energéticas como melhorar incentivos
ao etanol, energias alternativas como eólicas solares e marítimas.
Em
linhas gerais, o governo Dilma vem fazendo diagnósticos corretos da realidade
do país e de seus desafios macroeconômicos. O problema tem sido o elevado
número de ‘pacotes’. Ao invés, deveria apresentar uma Estratégia, de longo
prazo.
E
vem tendo boa capacidade gerencial de implantar mudanças significativas, não o
faz, acredito eu, por estar ela ainda em seu governo com ‘elementos’ [com
trocadilho] do antigo molusco, como o Ministro da Fazenda e o PR do Banco
Central, além de outros de Planejamento, que nada planejam, só apagam incêndios.
Essas
mudanças gerenciais, se implantadas, poderão apontar para um novo rumo. O novo
rumo que seria de um aumento geral do bem-estar da população de classe média,
pequeno, mas constante e, principalmente, consistente numa perspectiva de longo
prazo.
Inúmeras
armadilhas aparecem no caminho, com o desenvolvimento empreendido, causando
sérias ameaças aos direitos humanos e às minorias, e com a transformação econômica
não sendo acompanhada de uma modernização política e de democratização
institucional à altura. Também não está afastado o risco de que o país seja
tragado por um aprofundamento da crise no hemisfério norte, ou ainda que o
fantasma da inflação seja despertado por um erro na definição da taxa de juros.
É
devagar, penso que poderia ser muito mais rápido, mas os dois anos de governo
Dilma vão apontando um caminho relativamente consistente, exceções já citadas
acima. Interessante que esse novo caminho seja tentado por alguém que na
juventude acreditou que só era possível colocar o Brasil no rumo certo por uma
via revolucionária, com armas, sequestros, etc. Será que a prisão e décadas de
derrotas políticas foram transformadas e forjadas para um duro aprendizado?
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