terça-feira, 4 de dezembro de 2012

BALANÇO DE DOIS ANOS DO MANDATO DILMA



Sempre ao fim de cada ano as empresas realizam balanços de seus resultados alcançados. No caso de governos isso não é comum, mas resolvemos adotar medidas semelhantes em relação aos dois anos de mandato da presidente Dilma.
O ano de 2012 ainda não acabou, mas acho que já é possível tentar uma análise da primeira metade do mandato de Dilma Rousseff na presidência do Brasil.
Eu venho dizendo ao longo destes dois anos o que frisei no início do mandato dela. Dilma não é pessoa que gosta de ser mandada simplesmente porque quem manda quer, precisa convencê-la. Para ela sustentar uma ideia precisa que ela acredite nela, é o que se percebe pelo seu gestual e oratória. Ela não segue toda a cartilha do molusco, segue o que lhe convém.
Sempre indiquei que ela só teria um caminho para sobreviver na política. A necessidade de Dilma se afastar do governo do molusco gigante, mais ou menos no sentido de deixar claro que “quem manda” no governo é ela, e não o ex-presidente e seu principal mentor político.
Neste sentido ela deixou fritar vários ministros indicados pelo molusco, sendo Palocci o principal deles. Ela já em janeiro de 2011 se livrava ‘do incomodo’, prevendo a “fritura” de Palocci, que viria a se concretizar em 7 de junho.
O governo Dilma tenta, ainda, imprimir um marco diferente do molusco, qual seja o de ser um governo que consolidaria um país de classe média. Molusco dizia na sua retórica, e tentou sempre segui-la, que era um presidente que governaria para os pobres e miseráveis.
Dilma tenta se posicionar como uma presidente que transformaria o Brasil num país majoritariamente médio-classista.
 Sempre apostei que ela daria uma guinada em direção à classe média, setor econômico meio abandonado no governo do molusco. Iria, assim, se consolidar esta estratégia no governo dela, Dilma.
No início do mandato era, para mim, mais uma esperança do que uma constatação. De lá pra cá, o governo se consolidou de maneira bastante convincente. A ponto de o marqueteiro que fez a campanha vitoriosa do molusco em 2006, de Dilma em 2010 e de Haddad em 2012 apostar numa reeleição da presidente em primeiro turno, se concorrer [ou o molusco deixar], em 2014. Numa entrevista recente ao jornal Folha de São Paulo ela reafirma. Hoje dá pra dizer que o tal governo para a classe média é mesmo a estratégia e a principal marca da gestão de Dilma Rousseff.
O que demonstra visão estratégia e inteligência política. O principal risco que ameaçava o PT ao final do governo do molusco era ver o ‘quase sucesso total’ do combate à miséria cavar a sepultura eleitoral do próprio PT. A imagem seria mais ou menos a seguinte: o governo ‘molusquento’ teria se empenhado em amainar a dura vida dos pobres e miseráveis, que tem sido uma boa percentagem da população brasileira desde tempos imemoriais. Políticas de transferência de renda [esmolas], aumento real do salário mínimo e manutenção da estabilidade de preços, além de garantir o sucesso do Real implantado por FHC; garantiam o sucesso em tirar amplos contingentes da miséria extrema e lançá-los a tal “nova Classe C” [renda acima de R$ 1.500,00 mais ou menos], que é na verdade, a meu ver, uma mudança de país extremamente pobre para país pobre simplesmente.
Ao mesmo tempo, e ISSO A MÍDIA OPRESSORA NÃO DIVULGA, o governo ‘molusquento’ não descuidava de manter satisfeita a elite econômica (industrial, financeira e do agronegócio). Ao contrário do medo atávico que foi sempre cultivado pela imprensa oligárquica, o governo do molusco não arriscou nenhuma medida que prejudicasse o lucro da grande indústria, dos bancos ou do setor agroexportador. Quem se sentia abandonado politicamente nos tempos do molusco era, EXATAMENTE, a classe média das capitais [aposentados que recebem mais de um salário mínimo, pequenos empreendedores, executivos, professores, etc.] e dos grandes centros, o que explica em grande parte a sanha oposicionista de grandes setores da imprensa. A revista Veja e assemelhados não têm posição política, têm necessidades comerciais, e adotam a linha editorial que agrada seu público comprador. O risco que corria, e corre, o PT era/é o de ver o país virar classe média e o eleitor cair nos braços do PSDB, o partido de representação política médio-classista por excelência.
É provável que o molusco já contasse com todos estes fatores ao sustentar a candidatura de Dilma para sua sucessão. A ‘genialidade política' do ex-operário incluiu enfraquecer as instâncias do partidão [tornando-se um quase Deus, o partido do eu sozinho - políticos como Suplicy, Paulo Paim e outros no PT, quase não tem tido voz], que quase foi dizimado quando veio à tona os casos do ‘valerioduto’ - o ‘Mensalão’, e agora a operação Porto Seguro [essa infelizmente para ele chegou muito próximo do seu próprio 'closet'], além de muitos outros escândalos políticos, econômicos e sexuais. Com isso o molusco viu ‘jogarem aos leões’ os dois principais candidatos à sua sucessão: Palocci e Dirceu.
Houve um tempo em que se dizia que o molusco era meio que um tolinho, enquanto Palocci era o ‘esperto e inteligente’ que garantia o sucesso econômico do governo, e Dirceu o articulador e a eminência parda que garantia apoio político. Ficou provado que o molusco podia, e pode, sobreviver politicamente sem os dois, e um dos fatores que levou o metalúrgico a terminar o mandato em alta cotação junto a massa (uma coisa meio sem precedentes na política brasileira desde, digamos, Getúlio Vargas) foi o fato de não ter candidatos à sua sombra. Muito embora o último escândalo de corrupção e sexual tenha abalado sua credibilidade junto a massa. Afinal ele não seria semideus, mas um humano normal que até trairia a mulher em público e no privado [com trocadilho].
O outro aspecto desta ‘genialidade empírica’ foi escolher para a sucessão uma candidata sem vida própria, que dependeria totalmente dele, Dilma, para se eleger. Mas que, desafortunadamente para êle, tem todas as condições de desenvolver um ótimo mandato, e virar a nau petista para o tal país de classe média, impedindo que o sucesso político da sucessora do molusco jogasse o Brasil nas mãos do PSDB.
Hoje está claro que o plano da sucesora vem dando certo. O governo Dilma é uma continuidade profunda do governo ‘molusquento’, mas, também, apresenta pontos claros de ruptura.
Eu não consigo descobrir se a tal ruptura que eu imaginei quando ela foi eleita e tomou posse em janeiro de 2011 é efetiva ou é jogo de cena político. De uma coisa tenho certeza, as tensões internas são fortes entre Dilma e a turma de ex-poderoso José Dirceu, agora indo preso. Parece coincidência ou não, mas o tal caderninho que Dirceu tinha com uma lista quase infinita de nomeados para todos os escalões do governo é bastante coincidente com a lista de pessoas que a PF está investigando, que a imprensa está divulgando e a Dilma está demitindo, sem complacências. Na lista vários ministros, funcionários de alto escalão e subalternos, em suas inúmeras ‘faxinas.
Essa ideia de um governo que não tolera a corrupção, que é uma mudança de imagem bem forte em relação ao governo do molusco, que blindava seus amigos e correligionários desses escândalos e indiretamente ‘se blindava’. Esse mecanismo da atual PR faz parte do tal trânsito para uma política mais do agrado da classe média.
Nós poderíamos prever que o governo Dilma iria enveredar por esta linha quando ela foi visitar o pessoal da Folha de São Paulo, marcando uma aproximação do governo com a mídia tradicional com a qual o molusco nunca se deu, minimamente bem. Ou quando ela deu declarações que indicavam que a política externa do Brasil ia se afastar do Irã.
Estas grandes linhas de mudança (política externa, relação com a mídia/imprensa e tratamento da corrupção entre os aliados políticos) são, digamos assim, uma mudança mais de discurso ou de imagem, sem implicações muito diretas na vida econômica dos brasileiros, exceto pela sensação de alma lavada da classe média pensante, instruída e politizada.
As mudanças mais diretas, que podem afetar a classe média, estão sendo empreendidas na política econômica, na qual o governo Dilma vem provocando uma verdadeira revolução de bastidores sem alardes e sem discursos midiáticos que o molusco tanto adorava, falava sem agir, essa PR age sem falar.
Costuma-se dizer que um país como o Brasil é um ‘avião supersônico imenso’ - econômico, no qual não é possível ‘dar uma guinada de 360º’ - um ‘spin’ no ar.
Com dois anos em perspectiva, já podemos dizer que o governo Dilma colocou o Brasil no caminho de mudanças econômicas que desembocarão [se não houver desvio de rumo ‘orientado’ pelo molusco] tão profundas quanto à abertura comercial [quebra de cartéis do setor automotivo] da era Collor, ou a estabilização da moeda criação do bolsa-escola e as privatizações da era FHC, ou a retomada do crescimento e a tentativa de maior distribuição de renda da era ‘molusquenta’.
Entre as grandes mudanças, podemos elencar:
A.    a redução dos juros básicos, de níveis em que o patrimônio se multiplicava rapidamente em aplicações financeiras de baixo risco (aplicações de renda fixa), para níveis em que se terá de arranjar jeitos de ganhar dinheiro novamente em atividades produtivas, como em países normais;
a.    a migração do financiamento da previdência de impostos sobre o salário para impostos sobre o faturamento, coisa que o governo teve a sabedoria de fazer aos poucos, de modo que todo mundo pode se adaptar com calma. A medida beneficia setores mais intensivos em MO, e colabora para reduzir o tal custo Brasil e mitigar a transferência de produção industrial para a China;
b.    a retomada dos investimentos com privatizações em infra-estrutura: não apenas o Minha Casa Minha Vida, mas os ambiciosos programas de investimento em hidrelétricas, portos, rodovias, ferrovias e aeroportos. Esses gargalos que o molusco não atacou estão parados no Brasil há 10 anos, e que causa boa parte dos transtornos que aperreiam a vida da classe média nas grandes cidades, dos exportadores e do comércio em geral.
c.     o novo regime automotivo [diesel principalmente], que está ampliando e aprofundando os investimentos da indústria automobilística no Brasil, com profundos impactos em toda a cadeia produtiva;
d.    os embates na renovação das concessões de usinas elétricas que visam baixar a tarifa de energia, às custas das margens das empresas do setor e em benefício de todo o conjunto da economia;
A lista poderia aumentar com mais itens como: desburocratização, redução de impostos, redução da máquina estatal e eficiências energéticas como melhorar incentivos ao etanol, energias alternativas como eólicas solares e marítimas.
Em linhas gerais, o governo Dilma vem fazendo diagnósticos corretos da realidade do país e de seus desafios macroeconômicos. O problema tem sido o elevado número de ‘pacotes’. Ao invés, deveria apresentar uma Estratégia, de longo prazo.
E vem tendo boa capacidade gerencial de implantar mudanças significativas, não o faz, acredito eu, por estar ela ainda em seu governo com ‘elementos’ [com trocadilho] do antigo molusco, como o Ministro da Fazenda e o PR do Banco Central, além de outros de Planejamento, que nada planejam, só apagam incêndios.
Essas mudanças gerenciais, se implantadas, poderão apontar para um novo rumo. O novo rumo que seria de um aumento geral do bem-estar da população de classe média, pequeno, mas constante e, principalmente, consistente numa perspectiva de longo prazo.
Inúmeras armadilhas aparecem no caminho, com o desenvolvimento empreendido, causando sérias ameaças aos direitos humanos e às minorias, e com a transformação econômica não sendo acompanhada de uma modernização política e de democratização institucional à altura. Também não está afastado o risco de que o país seja tragado por um aprofundamento da crise no hemisfério norte, ou ainda que o fantasma da inflação seja despertado por um erro na definição da taxa de juros.
É devagar, penso que poderia ser muito mais rápido, mas os dois anos de governo Dilma vão apontando um caminho relativamente consistente, exceções já citadas acima. Interessante que esse novo caminho seja tentado por alguém que na juventude acreditou que só era possível colocar o Brasil no rumo certo por uma via revolucionária, com armas, sequestros, etc. Será que a prisão e décadas de derrotas políticas foram transformadas e forjadas para um duro aprendizado?

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