Por anos em que torço pelo Vasco da Gama vivo me perguntando, por que sou vascaíno? Meu pai português era torcedor do América e minha mãe brasileira torce pelo Fluminense. Quem me fez ser torcedor do Vasco foi minha prima Ema (Zita para os íntimos), mais velha que eu uns dez anos. Eu a acompanhava nas aulas de piano no Rio quando àquela época íamos de bonde de Santa Tereza até o Centro. Mesmo depois de casada, eu já homem feito, íamos ver os jogos do ‘Vascão’ juntos, sendo que o seu marido também era português e vascaíno.
Aprendi com meu pai e outros mais velhos sobre a história da construção do estádio – do Gigante da Colina, em São Januário, No subúrbio do Rio, numa área, àquela época, industrial e onde haviam resididos os príncipes. E de como o Vasco foi o primeiro clube a ‘aceitar’ negros no seu time de futebol e que entravam pela porta da frente para treinar, jogar e frequentar a área social. Aprendi como o Vasco foi o primeiro clube no Brasil a pagar salários para os jogadores, se tornando assim profissional. Que o Vasco era o ‘time da colônia’ (portuguesa), mas também era o time dos pobres suburbanos, trabalhadores (pedreiros e padeiros, por ex.), de operários de fábrica, dos negros e mulatos, dos nortistas e nordestinos que migraram ou permaneceram no Norte e Nordeste; e que era (e é) o clube que não distinguia entre os seus associados quaisquer credo, etnia ou classe social.
Esses argumentos se impregnaram na minha cabeça como uma IDEOLOGIA. Um estado de espírito. Uma subversão ao main stream, a corrente dominante de clubes da zona sul, área antes da classe social dita rica do Rio antigo.
Ora, se desde menino não me rendo as correntes dominantes do pensamento, sendo ‘roqueiro’ pelo gosto do ritmo e das letras, mas também pelo espírito e pelo way of life de não se conformar com regras estúpidas estabelecidas pelos homens mais ricos para dominarem os mais pobres; ser vascaíno além de honrar meus ancestrais portugueses, me garantiria estar permanentemente engajado, envolvido e comprometido com uma causa: de uma torcida que não se conforma em ser igual às outras, que não se abala nas derrotas e que ainda tem como slogan ‘o time da virada’.
Batalhas épicas foram vencidas contra os rivais a despeito das tramoias, ardis e outras maracutaias menos inteligentes. Não me recordo de nenhuma conquista, jogo final, vencido pelo Vasco ajudada pelo apito do árbitro.
Outra marca da IDEOLOGIA é a própria cruz de malta estilizada que demonstra fé, espírito cristão, além de homenagear os conquistadores portugueses.
O Vasco passou de pequeno a grande em dez meses, quando ‘lhe obrigaram’ (os três grandes da zona sul, dominantes) a construir seu estádio ‘para poder participar’ do campeonato estadual. Estava ali sendo cimentada a IDEOLOGIA. Com essa passagem de pequeno a grande graças à colônia portuguesa e aos industriais de São Cristovão, que bancaram a construção recorde (sem subvenção estatal), o Vasco se tornou o baluarte e o líder dos times do subúrbio, o líder das massas pobres e trabalhadoras. Coincidentemente, meu pai fazia o mesmo, como líder no sindicato dos padeiros da zona do subúrbio em contrapartida aos padeiros da zona sul.
Assim o Vasco continuou a ‘remar’ (Clube de Regatas) contra a corrente da mídia impressa, falada e televisada, agora no terreno do futebol.
Certos locutores de rádio abertamente expressavam sua tendência pelos outros três concorrentes do Rio. Desde Ari Barroso (Fla), Jorge Curi (Fla), ‘o Garotinho’ José Carlos Araujo (Flu), Nelson Rodrigues (Flu), Washington Rodrigues (Fla), Luis Mendes (Bot), João Saldanha (Bot), Marcio Guedes (Bot), etc. Uma exceção foi Orlando Batista, negro, que quando menino torcia pelo Fluminense, mas por ter sido impedido de entrar pela porta da frente do clube de Laranjeiras e ao invés, foi recebido cordial, gentil e livremente pelos sócios do Vasco, e assim ‘passou a ser vascaíno’. Daí em diante passou a render louvores ao Vasco, clube e diretoria, e aos seus sócios e torcedores, tomando a decisão de só transmitir jogos do Vasco pelo rádio. Trabalhou em várias emissoras sempre SÓ transmitindo jogos do Vasco, enquanto os outros transmitiam os três outros do Rio, mesmo quando o Vasco era o líder do campeonato. Foi na rádio Continental do Rio que aconteceu um dos momentos mais marcantes desse locutor, de voz inconfundível. Ele dizia que iria onde o Vasco fosse.
É o único caso na mídia do rádio, com declaração expressa de amor ao Vasco.
Neste primeiro trabalho sobre a ideologia ‘cruzmaltina’ é o que tenho a dizer, em outros trabalhos destacarei mais sobre o que é ser contra a corrente dominante.